A QUEM INTERESSA ACABAR O BANDO ANUNCIADOR?

Foto: Acorda Cidade

O Bando Anunciador da Festa de Santana não é apenas uma festa. É memória, tradição, identidade e patrimônio vivo de Feira de Santana. É uma manifestação cultural que atravessa gerações, ocupa as ruas, reúne diferentes classes sociais e transforma a cidade em território de celebração popular.

Por isso, é impossível assistir em silêncio ao que vem acontecendo com uma das mais importantes manifestações da cultura popular feirense.

A mudança do percurso do Bando Anunciador, imposta pela organização do evento, precisa ser discutida com a sociedade. Uma tradição construída historicamente nas ruas não pode ser alterada de forma unilateral, sem amplo diálogo com os grupos, brincantes, comerciantes, ambulantes e com a própria população que mantém essa manifestação viva.

A pergunta que precisa ser feita é: a quem interessa reduzir o Bando Anunciador?

Em 2026, o que se viu foi um evento marcado por problemas de organização, especialmente no que diz respeito aos trabalhadores ambulantes, que fazem parte da dinâmica econômica e cultural das festas populares. A falta de planejamento, de ordenamento e de diálogo com esses trabalhadores revelou uma preocupante incapacidade de compreender que uma manifestação popular não é composta apenas por palco, programação e atrações.

O Bando Anunciador é também feito de gente.

É feito dos vendedores que trabalham durante o cortejo. Dos grupos culturais. Dos moradores. Dos brincantes. Das famílias. Dos jovens. Dos mais velhos. Das pessoas que se encontram nas ruas para celebrar uma tradição que pertence à cidade.

O resultado foi um Bando Anunciador de 2026 que, para muitos, representou um verdadeiro fiasco. Um evento esvaziado em sua força, limitado em sua capacidade de mobilização e marcado por uma organização que parece não ter compreendido a dimensão cultural e social daquilo que estava sob sua responsabilidade.

E é justamente nesse ponto que surge uma preocupação legítima da Moviafro.

Porque manifestações culturais populares raramente desaparecem de uma hora para outra. Muitas vezes, o processo é mais silencioso.

Primeiro, reduz-se o percurso.

Depois, diminuem-se os horários.

Em seguida, enfraquece-se a organização.

Os trabalhadores são afastados.

Os grupos populares deixam de ser ouvidos.

A participação da comunidade diminui.

E, ano após ano, a manifestação vai perdendo força até que alguém possa dizer: “o evento não tem mais público”.

Foto: Acorda Cidade

É o que podemos chamar de morte lenta — ou asfixia cultural: uma estratégia, consciente ou não, de não cancelar o evento imediatamente, evitando o desgaste político com a população, mas permitindo que ele seja sufocado ano após ano até que, um dia, acabe por si mesmo.

Também é preciso falar sobre a possibilidade de uma higienização cultural.

Muitas vezes, a redução de percursos, horários e espaços destinados às festas populares pode representar uma tentativa velada de afastar determinadas parcelas da população ou de modificar o perfil original de uma manifestação cultural.

Quando uma festa popular começa a ser organizada para afastar o povo, controlar excessivamente sua presença e limitar sua ocupação das ruas, é preciso perguntar: qual público se deseja manter e qual público se deseja afastar?

A cultura popular não pode ser transformada em um produto domesticado, controlado e desprovido da espontaneidade que lhe dá sentido.

A Moviafro, enquanto organização comprometida com a valorização da cultura negra, da cultura popular e das manifestações de matriz africana, observa com profunda preocupação esse processo. A experiência histórica nos ensina que a cultura popular negra e periférica é frequentemente a primeira a sofrer com tentativas de controle, redução de espaços e apagamento de sua força coletiva.

Por isso, não podemos aceitar que o Bando Anunciador seja lentamente asfixiado.

Não estamos defendendo a ausência de organização. Pelo contrário: uma manifestação dessa dimensão precisa de planejamento, segurança, ordenamento, diálogo e responsabilidade pública.

Mas organização não pode significar sufocamento.

Segurança não pode ser utilizada como justificativa para apagar a tradição.

Mudança não pode significar descaracterização.

E modernização não pode ser sinônimo de afastamento do povo.

Foto: Acorda Cidade

O Bando Anunciador precisa ser discutido com seus verdadeiros protagonistas. Com os grupos culturais, com os ambulantes, com os moradores, com os brincantes, com os pesquisadores, com os produtores culturais e com a sociedade feirense.

Porque uma tradição popular não pode ser tratada como propriedade de uma organização, de um grupo ou de uma gestão.

O Bando Anunciador pertence à cidade.

Pertence à memória de Feira de Santana.

Pertence ao povo.

E, diante do que ocorreu em 2026, a pergunta permanece ecoando:

A QUEM INTERESSA ACABAR O BANDO ANUNCIADOR?

A Moviafro não quer assistir calada à morte lenta de uma das mais importantes manifestações culturais de Feira de Santana.

Antes que seja tarde demais, é preciso abrir o debate.

É preciso ouvir a cidade.

É preciso recuperar o diálogo.

É preciso garantir que o Bando Anunciador continue sendo aquilo que sempre foi: uma manifestação viva, popular, plural e verdadeiramente pertencente ao povo.

Porque cultura não se preserva apenas com discursos.

Cultura se preserva garantindo espaço, respeito, participação e liberdade para que o povo continue fazendo cultura.

 

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