QUEM TEM MEDO DO SAMBA-REGGAE?



Eu venho pensando muito sobre uma coisa que, para mim, precisa ser discutida com mais seriedade em Feira de Santana: por que o Samba-Reggae, e principalmente as nossas bandas percussivas, ainda encontram tantas dificuldades para ocupar os palcos dos grandes e pequenos eventos da nossa cidade? 

E aqui não estou falando apenas de festas. 
Estou falando de feiras, seminários, festivais, encontros culturais, eventos institucionais e tantas outras programações que acontecem durante o ano.

Feira de Santana tem uma produção cultural diversa e muito talentosa. Temos artistas e grupos de diferentes linguagens e gêneros musicais. 

E é justamente por reconhecer essa diversidade que eu não consigo compreender por que, em tantos eventos, a programação acaba se repetindo ano após ano, privilegiando praticamente os mesmos nomes, enquanto outros artistas e grupos continuam esperando por uma oportunidade.



Não se trata de tirar espaço de ninguém.

Trata-se de ampliar os espaços.

E quando falo especificamente do Samba-Reggae, a questão se torna ainda mais inquietante. 

Nós temos aqui em Feira de Santana, no mínimo, três excelentes bandas percussivas, com músicos preparados, repertórios, identidade, presença de palco e capacidade para realizar um verdadeiro espetáculo.

E vou além: temos banda que, na minha opinião, não deixa absolutamente nada a desejar, e não deve nada às maiores bandas de Samba-Reggae do planeta. Então, por que essas bandas não aparecem com mais frequência nas programações?

Será que ainda existe a ideia de que Samba-Reggae é apenas música para carnaval?

Será que ainda não conseguimos enxergar a força artística, cultural e profissional que existe por trás de uma banda percussiva?

Porque Samba-Reggae não é apenas um ritmo.

É uma construção da cultura negra. 

É ancestralidade transformada em música. 

É tambor, corpo, dança, identidade, resistência e criatividade.                              

E talvez seja justamente por isso que essa discussão precise ser feita. 


Nós, que fazemos cultura de matriz africana, muitas vezes precisamos criar os nossos próprios eventos para conseguir mostrar aquilo que produzimos. Criamos nossos festivais, nossos encontros, nossos cortejos, nossas programações e nossos espaços porque, se dependermos exclusivamente das agendas dos grandes eventos da cidade, muitas vezes simplesmente não chegamos ao palco.

E isso não deveria ser normal.

Não deveria ser necessário criar um evento de cultura negra para que uma banda de Samba-Reggae tenha a possibilidade de tocar.   

Ela deveria ser considerada quando qualquer evento estiver pensando em música, cultura e entretenimento.


É preciso que produtores, contratantes, empresas, instituições e gestores culturais compreendam que valorizar a cultura local não é apenas contratar artistas conhecidos ou aqueles que já estão acostumados a ocupar determinados palcos.

Valorizar a cultura local também é pesquisar, descobrir, ouvir e dar oportunidade a quem está produzindo algo de qualidade aqui.  

E  não estou dizendo isso para diminuir nenhum artista. 

Estou dizendo porque acredito que Feira de Santana pode ser muito maior culturalmente quando aprende a olhar para todos os seus talentos.



O Samba-Reggae não está pedindo favor.

As nossas bandas não precisam de caridade.

Precisam de oportunidade.

E talvez a pergunta que dá título a este texto seja justamente a que deveríamos fazer aos nossos produtores e contratantes:

Quem tem medo do Samba-Reggae?

Porque talento, Feira de Santana tem.

E tambor para provar isso também.


Val Conceição 



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