PORQUE SE JUNTAM DOIS PARA FALAR DE UM?


Tenho observado uma coisa que, infelizmente, tem se tornado cada vez mais comum nos nossos espaços: pessoas que não conseguem se encontrar sem transformar alguém ausente no assunto principal da conversa.

É quase uma regra: juntam-se dois para falar de um.

E o mais curioso é que, muitas vezes, quem fala e quem escuta nem se gostam de verdade. Mas basta existir uma terceira pessoa para ser criticada que, de repente, nasce uma afinidade. A fofoca aproxima. A falsidade cria alianças. O incômodo com o outro vira ponto de encontro. 

Isso acontece em muitos lugares, mas me preocupa especialmente quando acontece dentro dos nossos coletivos culturais e, principalmente, nos espaços ligados às religiões de matriz africana.

Falamos tanto de ancestralidade, comunidade, respeito aos mais velhos, irmandade e resistência. Reivindicamos respeito da sociedade para a nossa fé, denunciamos o racismo religioso e exigimos que nossas tradições sejam tratadas com dignidade. Tudo isso é necessário. Mas também precisamos ter coragem para olhar para dentro.

Não faz sentido pedir respeito lá fora enquanto alimentamos desrespeito aqui dentro.

Sacerdote falando de sacerdote. Filho de santo falando de outro filho de santo. Uma casa tentando diminuir a outra. Um coletivo torcendo para o projeto do outro não dar certo. Gente que abraça, tira foto, chama de irmão e, depois que a pessoa vira as costas, muda completamente o discurso.

Isso não é ancestralidade. Isso é falsidade.

E talvez uma das coisas que mais enfraqueçam nossas construções seja justamente essa dificuldade de reconhecer a caminhada do outro sem achar que o crescimento dele diminui o nosso.

Não precisamos concordar com todo mundo. Divergências existem e sempre existirão. O problema começa quando a divergência vira perseguição, quando a crítica vira fofoca e quando pessoas se unem não para construir alguma coisa, mas simplesmente porque encontraram alguém em comum para atacar.

Tenho aprendido que nem toda aproximação é amizade e nem toda concordância é lealdade. Às vezes, duas pessoas só estão juntas porque precisam de uma terceira para falar mal.

E tem uma coisa que o tempo sempre faz muito bem: revela quem estava construindo e quem estava apenas falando de quem construía.


Val Conceição

Coordenador Geral da Associação Cultural Moviafro

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